domingo, 19 de junho de 2011

Teatro da Gentileza

“Amor, deixa que eu faço pra você !”
“Claro que eu quero te ver, vou desmarcar meus compromissos, afinal você é mais importante que tudo em minha vida!”
“Imagine que vou deixar você ir sozinha!”
“Está com frio? Tome minha blusa!”
“O primeiro pedaço é seu, querida...”
“Não, eu vou te encontrar, não precisa se deslocar até aqui, vai se cansar...”
“Eu te amo tanto que sou capaz de passar meu dia inteiro só te admirando...”

Para onde vai esse amor todo depois de um certo tempo de relacionamento? Porque essas gentilezas não permanecem por muito tempo, talvez todo a convivência? Onde fica a linha que divide as gentilezas exageradas da geladeira?

Eu não me casei. Sou solteira, embora seja uma conservadora nesses assuntos...Acredito no amor, acredito que é possível viver com uma mesma pessoa por toda a vida e, ainda assim, ser feliz. Acredito na cumplicidade, no respeito mútuo, no carinho para sempre...Nunca vivi isso...Mas acredito ser possível...Aos meus trinta e três, quase trinta e quatro anos, acredito que ainda viverei uma relação destas. Mas como é difícil! Percebo o quanto existe de teatro nesses comportamentos super afáveis...É como se fosse uma máscara colocada para conquistar a presa...Uma vez atingido o objetivo, a máscara cai e surge a verdade. Surge a ausência, a falta de interesse...O “eu nunca vou te deixar sozinha” transforma-se no “te vira, nega que eu tenho mais o que fazer!”. Penso que a gentileza tem validade até as primeiras situações de desgaste. O “te amarei sempre” quer dizer “te amarei sempre, desde que você seja legal sempre”. Não ouse ter defeitos! Não ouse chorar! Não ouse ter problemas para resolver! O “amor” terminará por aí...A mão amiga virá quando você quer,  mas não precisa. Experimente realmente precisar dessa mão! Ela estará a quilômetros de distância da sua...

Quanto rancor, hein? Não, não...Não quero o rancor pra mim. Continuo acreditando no amor, na amizade, no carinho incondicional entre as pessoas...Mas não posso fechar meus olhos ao que está aí, nesse mundo no qual é pecado ser triste: existe um teatro da gentileza! Mostramos o que temos de melhor e só queremos do outro o ouro...Não me venha mostrar seu latão que eu vou recusar! Não é por aí...

Mostre-me o pior de você...E então, serei capaz de lhe amar...

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